Justificativas para que as coisas flutuem

 

A presença massiva de imagens produzidas por drones, algoritmos e técnicas de computação gráfica somada à intensidade de experiências imersivas em realidades virtuais, vem colocando novos problemas e desafios à pintura. Diante das restrições de circulação decorrentes da pandemia, as transformações da natureza da visualidade e da experiência espaço-temporal se intensificaram.


Foi imersa nesse contexto que Alice Ricci elaborou o conjunto de pinturas aqui apresentado. Ressignificando o conceito de artista viajante, aquele cuja produção encontra-se intrinsecamente conectada ao ato de se deslocar, a artista incorpora ao seu olhar, o olhar 360 graus do google street views. É desde esse ser artista-ciborgue-viajante que percorre as ruas virtualizadas de inúmeras cidades ao redor do mundo e captura cenas de sims, espaços criados no Second Life a partir da mimetização de elementos constituintes da realidade material.


A partir dessas experiências, Alice estabelece um franco diálogo com a tradição da pintura de paisagem, seus regimes de visualidade e modos de representação. Abandonando a relação espaço-temporal, recusando os vínculos entre representação e veracidade, a artista rompe com o paradigma de visualidade e a estrutura espacial dado pela perspectiva linear. Nas pinturas de Alice, a recusa do horizonte estável nos coloca diante de uma paisagem em suspensão, como que a flutuar no espaço.


Ao contrário da vocação documental das pinturas de paisagens, nas cenas das incursões que a artista-ciborgue-viajante realizou no mundo virtualizado do google street view e no mundo mimetizado do second life são evocados a partir de fragmentos. O referente só pode ser acessado por meio de ambíguas e fragmentárias evocações topológicas - aglomerados arquitetônicos, empenas de prédio, antenas, gruas de construção civil, asfalto, quadros de distribuição de energia, elementos gráficos, ortográficos e geométricos. São Paulo, Hong Kong, Salvador, Nairobi, Santa Fé flutuam, assim como na realidade virtual, em um mesmo plano.


Do mesmo modo, em cada uma das pinturas aqui exibidas, de dois a três campos de cores estruturam a composição e nos afetam desde luminosidades e variações tonais precisas. Muito embora contrastantes, a ênfase nos tons pastel faz com que as gradações assumam uma vocação, simultaneamente, de distanciamento e de proximidade com o tom vizinho. É justamente esse devir tonal que dá unidade à tela e também faz surgir o claro e o escuro a partir de uma relação de interdependência - oposição x continuidade - que cada cor estabelece com a outra.

É ainda a partir da relação entre suaves zonas de cor e zonas de aglutinação/ dispersão de uma arquitetura em transformação que a artista ativa, desde a planaridade espacial, não um vínculo entre figura e fundo, mas entre campos flutuantes que nos convocam a experiências e deslocamentos distintos.


Considerando a importância que a música eletrônica possui no pensamento visual da artista, a amplitude visual das zonas de cor, em tons suaves, de baixa saturação e vibração, poderiam ser pensadas enquanto áreas de silêncio. O recuo, o passo para trás, o distanciamento é a melhor maneira para se relacionar com o aconchego de sua unidade.
Flutuando junto a sobriedade da estática cromática, o ritmo acelerado da vida contemporânea. As zonas arquitetônicas, espaços de densidade, aceleração e cacofonia que nos exigem uma aproximação, um demoramento do olhar para uma melhor apreensão da dinâmica de seus elementos constitutivos.


Outro procedimento relacionado à dinâmica do olhar e recorrente em todas as telas aqui apresentadas é a utilização do amarelo fluorescente. Essa cor é acionada, simultaneamente, como um recurso de opacidade, por meio de uma intensificação da luminosidade que interdita a visão, quanto, em sentido oposto, como um elemento de exacerbada luminosidade que atrai e conduz nosso olhar. Por meio da repetição dessa cor, a artista aciona um instigante jogo de dar a ver/tornar opaco determinadas relações compositivas e reforça a unidade do conjunto aqui exibido.


Superada a perspectiva renascentista, rasgado o plano, diante da consolidação de modelos de visualização e da onipresença de imagens produzidas por tecnologias e softwares, qual o lugar da pintura na imagética contemporânea? Como pensar a pintura de paisagem e sua relação com a representação nesse contexto? As pinturas aqui reunidas não apenas nos convidam a refletir sobre essas questões, como, cada uma ao seu modo, acolhe, reflete e toma para si o desafio de lidar com a complexa constituição espacial de um mundo constituído desde realidades duais, simultâneas, interdependentes, onde as noções, relações e localizações espaço-temporais já não são capazes de nos sustentar, onde estamos todes flutuando, em queda livre.

 


texto: Fabrícia Jordão

[curadora, pesquisadora e

Professora Assistente na Universidade Federal do Paraná]

outubro/2021