Negativo do Consumo

 

      A marca é uma “ilusão de forma” numa

      cultura que se tornou descartável.

 

Isleide Arruda Fontenelle

 

      “Por favor, não façam isto!” Com essas palavras começava uma das centenas de cartas que a corporação McDonald´s recebeu na década de 1980, quando decidiu demolir uma de suas primeiras lojas. No documentário Corporation (2003), de Mark Achbar e Jennifer Abbott, alguns transeuntes numa avenida norte-americana, ao serem entrevistados, relatam o que nomes como General Eletrics, Coca-cola ou McDonald´s representam para eles. Em todas as respostas as marcas ganham feições humanizadas: General Eletrics se transforma em um “velho bonzinho e cheio de histórias”, Nike é chamada de “jovem” e “energética” e até mesmo Monsanto é descrita como alguém “vestido impecavelmente”. O que essas histórias têm em comum? À primeira vista, denunciam uma ingenuidade partilhada por todo consumidor, a saber, a de que em determinado produto existam poderes velados e realizações secretas. Essa ingenuidade passa a designar, então, o próprio espectro materializado do produto, seu nome, seu logo, sua marca. Se olharmos sob essa ótica particular para o trabalho de Alice Ricci, recebemos de volta algumas indagações que nos permitem complexar essas reflexões.

 

      É fato que o universo do consumo engendra fantasmagorias, não é por outro motivo que vivemos cercados de embalagens com imagens que falam tanto à nossa fantasia. Negar a riqueza dessas imagens seria tão ingênuo como proclamar sua autenticidade. Além de falsas aparências, as promessas evocadas são “nossas” promessas, e o sentimento de as estarmos perdendo sugere buscar por refúgio. No museu a redoma de vidro é consagrada aos objetos mais preciosos de nossa cultura, isolando-os da ação do tempo e concomitantemente tornando-os ideais, etéreos.

 

      O grande achado da artista foi transformar a redoma em espaço de afeto e nostalgia, sentimentos dos quais nos encontramos apartados. Além disso, o recorte em papel sulfite apenas sugere a embalagem “real” como um ideal platônico, o que confere sacralidade ao objeto desconsumizado, que não por acaso assume ares de igreja.

 

      Algo semelhante está no trabalho fotográfico Toddy – em que uma mão segura uma embalagem em preto e branco. É como se essa mão anônima buscasse, por meio da marca, ganhar uma individualidade e, em seu fracasso, expusesse a impossibilidade dessa humanização.

 

      A especulação em torno do gesto de “expor o concreto” também aparece nos objetos derretidos espalhados pelo chão em Decomposto. Como os relógios de Dalí , os aparatos eletrônicos parecem ter sofrido a ação corrosiva de um tempo acelerado. Contudo, ao saírem da tela e rolarem pelo chão, tais objetos indicam que essa temporalidade acelerada não foi buscada no inconsciente do artista, mas que é compartilhada pelo público como experiência coletiva. A memória é substituída pelo arquivo, pelo dado, pela gravação. Nossos dispositivos de registro tentam suprir o vazio que se abriu com a derrocada da memória.

 

      Paradoxalmente, a temporalidade acelerada dos objetos que se deterioram é o avesso da moeda de eterno presente do consumo, um tempo mítico de eterno gozo. Por isso o que está a salvo, isolado em um redoma de vidro, não são os objetos, mas a promessa que evocam, no fundo o que têm de mais verdadeiro.

 

      As embalagens descoloridas dispostas sobre a prateleira em Por outro lado fazem um curioso contraponto às Soup cans de Andy Warhol. Tal é o caso da bidimensionalidade e do jogo de cores que encontramos nos trabalhos de Warhol e que Alice Ricci parece ter virado pelo avesso. Contudo, ao nos distanciarmos de composição, o contraponto com o horizonte revela a silhueta de uma cidade. Novamente sentimos uma dualidade temporal: de um lado, o tempo-catástrofe, ameaçado abater sua mão pesada sobre uma cidade de embalagens; do outro, a lentidão bucólica de uma paisagem campestre. Nela uma pequena casa com telhado vermelho, o mesmo telhado da embalagem na redoma, o mesmo vermelho de Warhol.

 

texto: Daniel Garroux [crítico cultural], texto presente no catálogo do Projeto Tripé: Natureza Morta, SESC Pompéia, São Paulo, Brasil, 2009.

1   FONTELLE, Isleide Arruda. O nome da marca. São Paulo, 2002, Boitempo Editorial.

2  A anedota foi encontrada no mesmo livro, O nome da marca. O autor da carta, publicada no New York Times, explicava que demolir aquela lanchonete representaria não apenas a destruir “o maior artefato da cultura contemporânea” como também trair a “confiança” que as pessoas depositavam na companhia.

3  Referência ao quadro de Salvador Dalí, Désintégration de la persistance de la mémoire, de 1952.

 

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